Questão palestina (I): Antecedentes e principais conflitos

A questão da Palestina é uma das mais complexas disputas na conflituosa região do Oriente Médio. A pequena faixa de terra localizada entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo é foco de disputa de dois povos historicamente relacionados quanto às suas origens: os árabes e judeus.

Antecedentes

O território originalmente era povoado pelo povo hebreu, quando, no ano 70 d.C., estes foram expulsos pelos romanos e se espalharam pelo mundo, sendo a partir deste ponto chamados de judeus. Este momento ficou conhecido na história como segunda diáspora hebraica.

No século VII, inicia-se o processo de expansionismo árabe. Partindo da península arábica, este povo ocupou rapidamente diversas regiões da África, Ásia e até mesmo porções da Europa. Uma das áreas povoadas foi a região da Palestina. Os árabes ali permaneceram, por vezes subjugados ao Império Otomano ou ao controle inglês, até o período anterior à Segunda Guerra Mundial.
Localização geográfica da região da Palestina/Estado de Israel. Imagem: Amiglobe

Desde sua expulsão da Palestina pelos romanos, o povo judeu sempre manteve o desejo da criação de um estado próprio: o Estado de Israel. No final do século XIX, este ideal começou a tomar corpo, originando o chamado movimento sionista. A partir de sua criação, o movimento começou a incentivar a ida de judeus para a Palestina, através da compra de terras na região. Este fluxo migratório aumentou com o período da ascensão nazista, onde vários judeus foram para o território palestino com o objetivo de fugir da perseguição que o movimento de extrema-direita os impunha.

A situação entre palestinos (árabes) e israelenses (judeus) começou a piorar com a independência de diversos protetorados ingleses na região, como a da própria Palestina, da Transjordânia, agora Jordânia, e do Iraque. Para impedir um colapso da região, em 1948, a ONU, que acabara de ser criada, dividiu a região em duas áreas: uma árabe e outra judaica, enquanto Jerusalém seria uma zona internacional. Estava criado o Estado de Israel.

Principais conflitos

A criação de um Estado judeu em uma região com maioria árabe resultou em uma aumento da tensão na região. Os palestinos não viam com bons olhos a decisão da ONU em entregar nas mãos dos judeus um território que eles já ocupavam há séculos. Este sentimento de inconformidade eclodiu na primeira guerra entre os dois povos: a Guerra da Independência de Israel (1948-1949). De um lado, os israelenses procuravam expandir seus domínios pela região, criando os chamados "territórios ocupados". Do outro, os palestinos objetivavam recuperar o controle sobre o agora fundado Estado de Israel.

Este conflito acabou em 1949 com a vitória israelense. Os vitoriosos anexaram boa parte dos domínios árabes na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ao seu Estado. Aos palestinos, coube refugiarem-se em outros países do Oriente Médio, onde eram por vezes tratados com xenofobia e não tinham acesso a direitos básicos para vida. A ONU estima que cerca de 750 mil palestinos foram expulsos da região. Para eles, este período é lembrado como al-nakba, a catástrofe.
À esquerda, proposta feita pela ONU para a divisão da Palestina. Em verde, as regiões árabes, em cinza, as israelenses. À direita, divisão da região após a Guerra da Independência de Israel, em 1949. Imagens: By ComServant - Own work, derived from File:Palestinian_Territories,_1948-67.svg, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45994267/By Oncenawhile - Own work. This file was derived from:Is-map.PNGPalestine frontier 1922.pngUN Palestine Partition Versions 1947.jpg, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24952387


Guerra de Suez (1956)

Em 1956, o conflito não estava mais concentrado entre os povos da Palestina. O então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, decidiu nacionalizar o Canal de Suez, principal ligação entre o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo e importante rota de ligação entre as potências europeias e os países da Ásia.

Esta decisão, porém, irritou tanto os países europeus, principalmente França e Inglaterra, e os EUA, quanto o Estado de Israel, que viu a medida do governo egípcio como uma tentativa de bloquear a passagem do importante porto de Eilath, no Golfo de Ácaba.

Este conflito resultou em uma aliança entre israelenses e as forças ocidentais. Juntas, as nações venceram militarmente o Egito, embora Nasser tenha conseguido manter o controle sobre o Canal de Suez.

Guerra dos Seis Dias (1967)

A conquista do Canal de Suez deu ao mundo árabe ânimo para tentar reconquistar as terras perdidas. Nos momentos anteriores à guerra, houve uma intensa articulação diplomática e militar entre os líderes das principais potências regionais: Líbano, Egito, Síria e Jordânia.


Um ponto que vale ser destacado é a disputa pelo Rio Jordão. A Síria estava interessada em desviar parte do seu curso para irrigar suas plantações. Porém, este desvio diminuiria o fluxo de água no leito do rio, o que prejudicaria o Estado de Israel. A geopolítica da água, portanto, foi de suma importância para a continuação do conflito.

Em 1964, a reunião da Liga Árabe no Cairo tratou sobre, além dos desvios no Rio Jordão, a ameaça que Israel agora era para o mundo árabe. Esta articulação deixou os israelenses desconfiados, levando a um ataque súbito do país contra seus adversários. Em apenas seis dias, Israel havia desmantelado qualquer tipo de plano árabe para reassumir o controle da Palestina, e ocupado e anexado a seu território regiões estratégicas dos países derrotados, como a Península do Sinai (Egito), a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã (Síria), onde ficam localizadas as nascentes do Rio Jordão.
Em bege, as regiões conquistadas por Israel após a Guerra dos Seis Dias. Imagem: By User:Ling.Nutderivative work: Rafy - Six_Day_War_Terrritories.png, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16891593

Guerra do Yom Kipur (1973)

O contra-ataque árabe, liderado por Egito e Síria, ocorreu em 1973, durante o feriado judeu de Yom Kipur (Dia do Perdão). Surpreendidos, os israelenses viram suas principais conquistas durante a Guerra dos Seis Dias voltarem para o controle dos seus donos originais: a península do Sinai, ao Egito, e as colinas de Golã, para os sírios.

Porém, com apoio americano, o Estado de Israel consegue se recuperar e ocupar o Canal de Suez, além de impor grandes bombardeios ao Cairo e à Damasco. Com tais estratégias, os israelenses vencem, novamente, uma guerra contra as potência árabes.

Um episódio importante após o conflito foi o acordo de Camp David, feito entre o governo egípcio e o Estado de Israel, que devolvia a península do Sinai ao país africano em troca do reconhecimento do estado judeu. Por retaliação, o Egito foi expulso da Liga Árabe.
Leia a segunda parte do artigo sobre a questão palestina. Ele trata da formação da organização palestina e dos esforços globais para o estabelecimento da paz na região. Clique aqui.



Fernando Soares
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