Questão palestina (II): A organização palestina e as tentativas de paz

O conflito entre palestinos e israelenses pela região compreendida entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo vem se arrastando por décadas. A partir da Guerra do Yom Kipur, em 1973, porém, as tentativas de paz e os acordos começaram a se tornar mais frequentes, evidenciando um desejo de trégua entre as duas partes antagônicas da disputa.

É fato, ainda assim, que esta tendência à resolução do conflito tampouco é linear ou progressiva. A alternância entre governos, tanto do lado judeu quanto do lado árabe, proporciona um revezamento entre momentos de diplomacia e momentos de ataque. É esta dinâmica entre as forças protagonistas e o fim da inércia dos grandes órgãos e governos mundiais no que diz respeito ao conflito que serão discutidos abaixo.
Para total compreensão do que será explicado, recomendamos que você leia o primeiro artigo sobre a questão palestina, que trata dos seus antecedentes e dos principais conflitos até 1973. Clique aqui.

Da Al-Fatah à OLP

A derrota na Guerra da Independência de Israel (1948-1949) significou uma grande humilhação para o povo palestino. Para eles, este episódio ficou conhecido como al-nakba, a catástrofe. Com a perda de grande parte do seu território e a inconformidade com a instalação do Estado de Israel, os palestinos se organizaram em um grupo terrorista em 1959, na vizinha Jordânia, conhecido como Movimento de Libertação Nacional da Palestina, ou simplesmente Al-Fatah.

Comandado por Yasser Arafat, o grupo tinha por objetivo combater e resistir às ofensivas israelenses, além de tentar recuperar as terras perdidas para os adversários. Aos poucos, porém, as operações da Fatah tornaram-se prejudiciais aos países que os abrigavam. A tensão causada na Jordânia levou a expulsão do grupo do país.
Yasser Arafat no Fórum Econômico Mundial. Imagem: By Copyright World Economic Forum (www.weforum.org) swiss-image.ch/Photo by Remy Steinegger [CC BY-SA 2.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0)], via Wikimedia Commons
Em 1964, foi criada, por membros da Al-Fatah, a OLP (Organização para Libertação da Palestina), grupo que aos poucos absorveu a Fatah, mantendo seus ideais e seu líder. Já instalados no Líbano, a OLP se comprometeu em abandonar seu caráter terrorista e em tentar defender os direitos dos palestinos por vias diplomáticas. Em 1974, a organização era reconhecida pela ONU como representante legítima do povo palestino. Sob comando de Yasser Arafat, estava criado o arranjo necessário às negociações pela paz com os israelenses.

Acordos de Oslo

A década de 1990 trouxe esperança ao mundo em relação à questão palestina. Além do reconhecimento da OLP como instituição legítima dos palestinos, ascendeu ao poder, em Israel, o governo trabalhista de Yitzhak Rabin.

Não demorou muito para que os líderes das duas nações estabelecessem diálogo. Após negociações na cidade Oslo, foram assinados, em Washington (EUA), uma série de acordos entre os anos de 1993 e 1995, entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, conhecidos como acordos de Oslo. Entre os pontos previstos, estavam a devolução da Faixa de Gaza e da Cisjordânia para os palestinos para o estabelecimento de um futuro Estado, e o reconhecimento, por parte da Palestina, do Estado de Israel. Pelo esforço em conjunto para resolver a situação na região, Rabin e Arafat foram laureados com o Nobel da Paz de 1994. Parecia que a guerra entre árabes e judeus estava próxima ao fim.
Aperto de mão histórico entre Yitzhak Rabin, à esquerda, e Yasser Arafat, à direita, intermediado pelo então presidente americano Bill Clinton, no centro, após a assinatura de um dos chamados acordos de Oslo. O mundo começava a sonhar com o fim do sangrento conflito árabe-israelense.
Em 1995, porém, um judeu ultraconservador, supostamente filiado ao grupo terrorista israelense Eyal, assassinou Yitzhak Rabin, mostrando a insatisfação de parte da população com as concessões aos palestinos. No ano seguinte, o direitista Benjamin Netanyahu assume o cargo de primeiro-ministro de Israel, promovendo uma retomada à expansão judaica na Cisjordânia, o fechamento do escritório da OLP em Jerusalém e retrocedendo o processo de paz planejado pelo seu antecessor.
Palestina após a assinatura de Oslo 2. Em verde, destacam-se regiões administradas pela ANP. Imagem: By Oncenawhile [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Ehud Barak e Ariel Sharon

Em 1999, Ehud Barak vira primeiro-ministro de Israel prometendo resolver algumas pendências deixadas pelo antecessor em relação à questão palestina. Uma destas pendências era o acordo de Wye Plantation, que previa a retirada das forças israelenses da Cisjordânia. Era um reinício para as negociações com a Palestina.


No ano 2000, foi assinado um novo acordo em Camp David. Porém, por ser considerado vazio, estabelecendo poucas resoluções em relação às principais reivindicações dos palestinos, o acordo acabou fracassando. Mesmo após outra tentativa de concessão feita por Barak, Arafat se recusou a assinar. Esta insistência do primeiro-ministro, porém, foi mal vista pelas alas mais conservadores da sociedade israelense, que não demorou para tirar seu bloco político do poder.

Em 2001, foi a vez de Ariel Sharon assumir o poder em Israel. Político conservador, o novo primeiro-ministro declarou o não reconhecimento aos acordos de Oslo e promoveu uma caça aos principais líderes palestinos, além de defender a criação de um muro que separava a Cisjordânia do restante do território de Israel. Apesar disso, em 2003, Sharon assinou novos acordos com Mahmud Abbas, que viria a substituir Yasser Arafat na OLP após sua morte, em 2005.
Muro que separa a Cisjordânia (Palestina) do restante do Estado de Israel. Imagem:Por Justin McIntosh - The Photographer. Originally uploaded to a different location., CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1157066
Entre as resoluções do novo acordo, conhecido como Mapa do Caminho, estavam a entrega gradual da Faixa de Gaza e de parte da Cisjordânia para os palestinos. Os acordos, porém, não acalmaram os extremistas árabes, tampouco mantiveram o apoio congressista ao primeiro-ministro. Atualmente, Benjamin Netanyahu é novamente o principal líder de Israel.

O Hamas

Após os acordos de Oslo, Yasser Arafat fundou a Autoridade Nacional Palestina (ANP), uma espécie de governo autônomo responsável por gerir o território cedido pelos israelenses, englobando diversas áreas, como saúde, educação e finanças. O órgão seria formado por um parlamento, com a maioria dos representantes do partido Fatah/OLP.

Em 2006, porém, foram realizadas eleições para escolher o novo parlamento da ANP. De forma surpreendente, o Hamas, braço político do grupo terrorista homônimo, conquistou a maioria das cadeiras, resultando em uma crise política de largas proporções.

Historicamente, o grupo Hamas esteve ligado a ataques contra os israelenses e, assumindo o controle da ANP, dificultaria os acordos pela paz. O líder da Fatah, Mahmud Abbas, tentou, inclusive, dissolver o parlamento, o que provocou uma guerra entre os dois partidos pela representação da causa palestina.
Atentado terrorista provocado pelo Hamas na cidade de Jerusalém
Após alguns anos de conflito, o Hamas conseguiu assumir o controle da pobre região da Faixa de Gaza, enquanto a Fatah manteve seu domínio sobre a Cisjordânia. Sofrendo retaliações do governo israelense, a Faixa de Gaza hoje vive sob estado de isolamento de suas fronteiras. O pequeno território tem cerca de 360 km² e abriga impressionantes 1,8 milhões de habitantes. Isto significa uma densidade demográfica de incríveis 5.000 hab./km². A região é repleta de favelas e tem uma população predominantemente pobre.



Fernando Soares
Fernando Soares

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