30 de jan de 2017

O conflito entre Tutsis e Hutus

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O conflito entre os povos tutsi e hutu foi mais um episódio da tensão criada pelo imperialismo das nações europeias na África. Este conflito, que ocorreu na pequena Ruanda, país localizado no centro do continente, resultou em seu ápice em um massacre que matou cerca de 800 mil pessoas em cerca de apenas cem dias. 

Até o fim da Primeira Guerra Mundial, Ruanda era um protetorado da Alemanha. Com a derrota germânica no conflito, o país foi ocupado pela Bélgica, que tinha claros intuitos de, assim como todas as nações imperialistas da época, dominar os povos que lá viviam.

Os tutsis e os hutus têm o mesmo idioma e se reconhecem a partir de uma mesma cultura. Porém, apresentam diferenciações físicas aparentes. Os hutus são de origem bantu, tem baixa estatura e características negróides. Habitavam a região onde atualmente é Ruanda há muitos séculos e atualmente constituem cerca de 84% da população ruandesa. No século XV, o povo tutsi, originário da Etiópia, invadiu e ocupou a região. Os tutsis têm a pele mais clara, embora ainda serem negros, traços mais finos e estatura maior. Atualmente constituem 14% da população do país. 
Localização geográfica de Ruanda
Esta diferença física foi usada como pretexto para que os belgas inflamassem um povo contra o outro, com o objetivo de dominá-los de maneira mais fácil. Ao obterem os poderes sobre Ruanda, a Bélgica apoiou a minoria tutsi e concedeu a eles a administração política do país, ao mesmo tempo que subjugavam a maioria hutu. O administração belga chegou, inclusive, a marcar nos documentos de identificação ruandeses qual etnia cada habitante pertencia. 

Em 1959, os belgas se articulam com a maioria hutu, que consegue retirar a monarquia tutsi do poder. Em 1962, dentro do processo de esfacelamento dos impérios neocoloniais, Ruanda conquista a independência sob o domínio hutu. Acuados, os tutsis fogem para países vizinhos, onde vão criar grandes campos de refugiados. Neste momento, mesmo sem a interferência belga, a rivalidade entre os dois povos já havia sido concretizada.


O conflito passou a tomar formas ainda mais violentas a partir da década de 1990. Ao mesmo tempo que os tutsi, exilados nos países vizinhos de Ruanda, se organizavam na Frente Patriótica Ruandesa (FPR), com o objetivo de retomar o poder do país, o avião que levava o então presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, é abatido por mísseis enquanto retornava de uma viagem até a Bélgica em busca de ajuda humanitária. O presidente do Burundi, país vizinho, também estava no avião e também foi vítima do acidente.

O povo hutu acusou a FPR pelo assassinato. Este fato foi o estopim para uma onda de violência generalizada no país. Em meio ao conflito, foi organizado o grupo extremista hutu Interahmwe, que passou a inflamar a população hutu contra a minoria tutsi que habitava o país, especialmente através de estações de rádio, que tiveram papel importante na propagação do ódio em Ruanda. 

Dada esta configuração, iniciou-se um grande genocídio, que vitimou cerca de 800 mil tutsis em cerca de três meses de conflito. Cerca de duas milhões de pessoas da etnia tutsi fugiram para a República Democrática do Congo. A maioria dos assassinatos era feito com o uso de facões, instrumento comum nas casas do ruandeses. O nível de barbárie era tanto, que, além dos nomes dos mortos serem anunciados nas rádios do país, eram relativamente comuns casos onde, conforme e BBC, maridos matavam esposas e padres e freiras matavam aqueles que buscavam abrigo nas igrejas. 

Paul Kagame, ex-líder da FPR e atual presidente de Ruanda, em encontro com então presidente americano George W. Bush


O massacre foi finalizado quando o FPR, sob comando de Paul Kagame, ocupou a cidade de Kigali, capital de Ruanda, ao mesmo tempo que o exército francês, aliado do governo hutu, invadiu o sudoeste do país. Em 2003, Paul Kagame foi eleito presidente do país. Apesar de buscar a conciliação entre os dois povos, a eleição de Kagame provocou a migração de milhões de hutus para a República Democrática do Congo, entre eles, inclusive, alguns líderes extremistas da Interahmwe. Este fato levou Kagame a invadir duas vezes o país vizinho, acusando o governo local de proteger líderes hutus.
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