Geografia do Campeonato Brasileiro de Futebol

Todos os anos, o Campeonato Brasileiro de Futebol, organizado pela CBF, consagra o melhor clube de futebol do país. Além de ser um campeonato que instiga grandes rivalidades, o Brasileirão está impregnado de “geografices”. Estas, podem enaltecer aspectos importantes acerca da organização espacial do futebol e do esporte brasileiro, bem como podem evidenciar as desigualdades do espaço quanto a esta prática esportiva.

É seguindo este viés que discutiremos abaixo.

Histórico das participações no torneio

Levando em consideração as primeira divisões dos Campeonatos Brasileiros disputados desde 1959, quando ainda eram chamados de “Taça Brasil”, podemos perceber, conforme o mapa abaixo, uma certa concentração de clubes participantes no torneio no eixo Rio-SP. Os clubes paulistas participaram cerca de 351 vezes do Brasileirão, enquanto que os fluminenses cerca de 263 vezes. Acima de 100 participações encontramos os clubes dos estados de Minas Gerais (142), Rio Grande do Sul (138) e Paraná (122).

Participação na primeira divisão do futebol brasileiro por Unidade Federativa

Participação na primeira divisão do futebol brasileiro por Unidade Federativa

É notável a concentração dos clubes na elite do futebol brasileiro em estados com costa litorânea. O interior do país, com exceção de Minas Gerais e Goiás, apresentam as menores participações (notadamente as regiões Norte e Centro-Oeste). Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Acre, todos estados da Região Norte, nunca tiveram um clube na elite nacional.

Histórico dos títulos no torneio

Quando o assunto são os títulos da primeira divisão nacional, o estado de São Paulo se destaca perante os demais. Palmeiras (9), Santos (8), Corinthians (6), São Paulo (6) e Guarani (1) conquistaram 30 títulos ao todo para o estado. Também é em São Paulo onde encontramos os únicos campeões nacionais sediados fora de uma capital estadual: o Santos, do município homônimo, e o Guarani, de Campinas.

Flamengo (5), Fluminense (4), Vasco (4) e Botafogo (2) colocam o RJ em segundo lugar no ranking de títulos, com 15 ao todo, a metade dos vizinhos. A dupla Gre-nal acumula 5 títulos para o estado do Rio Grande do Sul, 3 para o Inter e 2 para o Grêmio, mesmo número de canecos levantados por Minas Gerais com Cruzeiro (4) e Atlético (1). Completando a lista, Bahia e Paraná apresentam 2 títulos, enquanto o Pernambuco, 1.

Títulos da primeira divisão do Campeonato Brasileiro por Unidade Federativa

A cidade mais ao norte a conquistar um título brasileiro foi Recife, com o Sport. A cidade mais ao sul foi Porto Alegre, com Inter e Grêmio. Longitudinalmente, as cidades se repetem: Recife foi a cidade mais oriental a levantar o caneco, enquanto a mais ocidental foi Porto Alegre. Porém, Porto Alegre (RS) está na longitude 51ºO, enquanto que o ponto extremo oeste brasileiro está na longitude 74ºO (nascente do Rio Moa/AC). Isto demonstra a falta de clubes com reputação nacional nas regiões interioranas brasileiras, mesmo com a existência de grandes cidades nestas regiões, como Manaus e Cuiabá.

Área de concentração de grandes clubes

Apesar disto, duas cidades fora desta área da concentração dos clubes de elite foram escolhidas como sede da Copa do Mundo FIFA 2014. Cuiabá, onde foi erguida a Arena Pantanal, e Manaus, onde foi erguida a Arena Amazônia. Outras cidades dentro desta área, como Florianópolis, Goiânia e até mesmo Belém, onde ocorre o inflamado clássico Re-pa (Remo e Paysandu) ficaram de fora. Seria esta uma tentativa de levar investimentos ao futebol destas regiões ou apenas mais um capítulo do jogo político regional?

Campeonato Brasileiro de 2017

Em uma análise mais específica sobre o Brasileirão de 2017, que estreia em maio, podemos notar uma predominância dos processos de centralização espacial dos clubes apresentados anteriormente.

A região Sudeste apresenta 11 participantes (5 de SP, 4 do RJ e 2 de MG), a região Sul, 5 (2 do PR, 2 de SC e 1 do RS), o Nordeste, 3 (2 da BA e 1 de PE), enquanto que a região Centro-Oeste terá apenas um representante, o Atlético Goianiense, de Goiânia, Goiás.

Times do Campeonato Brasileiro 2017

Desta vez, a cidade mais ocidental a ter um representante na elite do futebol brasileiro é Chapecó, em Santa Catarina. Ainda assim, podemos notar um vazio de clubes da Série A em longitudes maiores. Chapecó, com pouco mais de 200.000 habitantes é também a menor cidade a ter um clube na elite. Além de Chapecó, os municípios de Campinas e Santos são as únicas cidades que não são capitais estaduais a terem times neste quadro. Chapecó, Florianópolis e Santos são as únicas com menos de 1 milhão de habitantes.

CidadeNº de habitantes (IBGE, 2016)
São Paulo12.038.175
Rio de Janeiro6.498.837
Salvador2.938.092
Belo Horizonte2.513.451
Curitiba1.893.997
Recife1.625.583
Porto Alegre1.481.018
Goiânia1.448.639
Campinas1.173.370
Florianópolis477.798
Santos434.369
Chapecó209.553

O clube melhor posicionado na hierarquia do Campeonato Brasileiro da região Norte é o Paysandu, de Belém/PA, que disputará a Série B no ano que vem. Mesmo assim, é o único. Mesmo na Série C, encontramos apenas mais um representante, o Remo, também de Belém.

Concluindo

Assim, podemos entender que, apesar de sermos reconhecidos como o país do futebol, apenas uma parte do país apresenta de fato clubes de repercussão nacional. Notadamente, o leste brasileiro e as grandes cidades concentram este tipo de futebol. Obviamente, a espacialização deste esporte não pode ser medida apenas pela existência de grandes clubes, pois ele está deveras inserido na realidade brasileira, ilustrado em campos de pelada e no futebol amador Brasil afora.

Ainda assim, tal diferenciação do espaço futebolístico deve ser analisada e questionada para de fato entendermos os fatores condicionantes para a concentração dos fluxos de capital, de investimento e de mídia deste esporte em apenas uma parcela do país.

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Meu nome é Fernando Soares de Jesus, natural de Imbituba/SC, estudante do curso de graduação em Geografia na UFSC e futuro geógrafo e professor. Criei este blog ainda no Ensino Médio, em meados de 2013, com o objetivo de compartilhar e democratizar o conhecimento geográfico, desde o campo físico até o campo humano, permitindo seu acesso de maneira clara e descomplicada.

5 Comments

  1. João Victor Reply

    Excelente artigo, caro colega de Geografia. No meu primeiro semestre de curso, precisei fazer um trabalho de antropologia cultural, onde meu grupo falaria sobre rivalidades futebolisticas. Como sou de Belém, falamos sobre o RexPa. Foi muito difícil acharmos artigos falando sobre o esporte tanto na Geografia quanto na Antrologia, lembro-me que vi apenas um único trabalho interessante, escrito pelo Roberto Da Mata, mas foi o único mesmo. kkkk.

    Enfim, é bom observar algo entre a geografia e o futebol. Quem sabe, num futuro próximo, lancem uma área como Geografia do Esporte? Já existem tantas ciências por aí ligadas ao futebol, ao Vôlei, ao Basquete, à natação, etc. A ciência geografica deveria se inclinar para esses lados também.

    1. Fernando Soares de Jesus Post author Reply

      haha Realmente, é uma área pouca explorada dentro da Geografia. Mas acredito que possam haver perspectivas, afinal o esporte também implica em uma reorganização das formas espaciais, ao mesmo tempo que ele, em si, tem sua espacialidade. Em relação ao primeiro ponto, tive a felicidade de assistir no último EGAL, em La Paz, uma palestra sobre o estádio Mané Garrincha, em Brasília, e as diferentes incursões da construção dele no espaço. Infelizmente não lembro o nome das palestrantes. Mas foi muito interessante para quem é apaixonado por futebol e por geografia.

      1. João Victor Reply

        Poisé, cara. O futebol em sí envolve muitas categorias que a Geografia trabalha, como o Lugar (nos estádios e seus arredores), o Território (das torcidas), a Paisagem (em dia de jogos)… Sem falar nos conceitos mais específicos de geopolítica e geografia econômia que, por exemplo, nós podemos usar para fazermos um paralelo sobre Europa x América do Sul. Onde fatores como a moeda determina, e muito, a perspectivas dos clubes.

        Ainda sou um “calouro” na Geografia. Curso o 3 semestre. E me relaciono pouco com os grupos de pesquisa da minha instituição, no caso a UFPA, por não me encaixar tanto em algumas áreas. Tenho grande facilidade em economia, assim como tenho uma paixão grande pelo futebol, até por isso tenho essa “utopia” dentro de mim; onde eu adoraria que houvesse essa área dentro do curso.

        Parabéns pelo blog!!!
        Li outros textos, como aquele de modelos de produção, e gostei bastante.

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